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O Guia da Ilustração Editorial - Parte 2

Eu NUNCA fiz ilustração editorial antes, com o que eu devo me preocupar?

Giulia Marchi
Publicado em
30 de outubro de 2020

E voltamos aqui para falar um pouco mais sobre o ilustração editorial! Depois de apresentar um pouco de como funciona esse mercado aqui no Brasil, estamos trazendo algumas informações técnicas básicas que você vai precisar na hora de fazer suas ilustrações, afinal, a ilustração editorial não é apenas um desenho isolado!

Esses desenhos interagem com a página, os textos e até as outras ilustrações do livro e, por isso, quando você vai trabalhar com eles, tem sempre que ter em mente como vão ficar as páginas completas. Quando você vai trabalhar para uma editora, geralmente há um designer ou uma equipe que é responsável pela diagramação das páginas e isso já vem pronto (ou praticamente) para você quando aceita o trabalho.

A Bárbara Siewent é uma designer gráfica que trabalha com ilustração e fotomontagem para o mercado editorial, principalmente em revistas. Nesse cartaz, e em muitos outros trabalhos que ela compartilha, você consegue entender um pouco do que quero dizer com "ilustração editorial não é apenas um desenho isolado!". Vocês podem ver esse e outros trabalhos dela em seu Instagram =)

Os livros que não são didáticos e paradidáticos, por outro lado, também tendem a ter uma atenção maior a que tipo de ilustração está entrando ali no meio, além da diagramação também é preciso lidar com o autor, o mesmo vale para a publicidade. Tem um “bate e volta” de ideias e rascunhos das ilustrações muito maior, mais ajustes, mais testes de personagens, etc. Isso não costuma acontecer em livros didáticos. Tem ali sempre as mesmas personagens que você vai ter que trabalhar, definir uma unidade de traço e uma paleta de cores geral do livro. Mas, por outro lado, esse tipo de publicação também é mais aberta a um diálogo com o ilustrador, sobre mudar layouts de páginas, ideias novas, além de serem trabalhos com menos pressa para serem entregues (mas não que os prazos sejam muuuito longos também). MAS, também tenham em mente que, apesar de uma maior flexibilidade, você é parte de um processo e algumas alterações como “VAMOS MUDAR TUDO” não dependem apenas de você.

Garantindo que seu desenho não seja cortado para fora da página!

Como já falamos, na ilustração editorial é bastante importante você ter em mente que, muitas vezes sua ilustração não vai ser a única coisa na página e, ainda mais, praticamente nunca você vai participar dos processos de diagramação e impressão do livro (a não ser que seja uma publicação independente sua). Por isso, é OBRIGATÓRIO que você faça uma sangria em todas as ilustrações que ficarão próximas ou rentes às bordas do papel! A sangria nada mais é do que um espaço na própria ilustração, de 0,5 a 2 centímetros (dependendo de cada arte), que é uma segurança, uma margem que ainda faz parte da ilustração, uma continuação das cores, cenário, etc.

Mas porque isso?! Na hora da impressão, todas as páginas são cortadas juntas por uma máquina, para que fiquem todas do mesmo tamanho e pode acontecer que, sem essa margem de segurança, que sua ilustração tenha um pedaço importante cortado para fora ou até que fique uma margem branca a mais do que deveria. Essa parte da ilustração não tem nenhuma informação importante, mas está lá porque é um risco muito grande colocar uma ilustração ajustada exatamente do jeito que será impressa. 

O mesmo vale para os desenhos que vão ficar perto do vinco, que pode distorcer ou ocultar algum pedaço da ilustração.

Vou te mostrar a importância disso mostrando um trabalho meu mesmo. Repare a diferença em todas as laterais da imagem digital e da impressa, e essa diferença fica bastante nítida próxima as margens dos quadros =(

Mas além de trabalhar para as editoras, eu também quero fazer meu próprio livro!

Agora, se você está trabalhando em um projeto independente, uma publicação pessoal, não se esqueça de que o trabalho de diagramação que viria pronto da gráfica, vai passar todo para você! Antes de fazer as ilustrações, é bem importante que o texto já esteja pronto e, assim, é uma boa ideia você fazer um protótipo em tamanho real do livro, que vai indicar o tamanho e onde o texto irá em cada página impressa (algo bem simples mesmo, para te guiar na hora de ilustrar). Podemos chamar esse protótipo de “boneco do livro” e ele serve para simular como ficará a publicação final, já no tamanho real, e para identificar e prevenir falhas antes do projeto já estar mais próximo da finalização.

Nesse “boneco” você vai acrescentar, além das páginas escritas e ilustradas, a capa, contra capa, possíveis páginas de introdução, apresentação, ficha técnica, agradecimentos, ou qualquer outra coisa que possa fazer parte do seu projeto. Com ele também, você já vai ter uma noção de como exatamente as páginas serão impressas. Segue aqui um exemplo para você:

Não vamos te ensinar como fazer o projeto gráfico de livro completo aqui, mas essas são algumas coisas importantes que você deve se preocupar quando for fazer:

  • Fonte e tamanho do texto
  • A sangria vale tanto para as ilustrações quando para o texto!
  • Informações técnicas e textos complementares (ficha catalográfica, bio do autor/autora, sinopse que vai na contra capa ou nas abas)
  • Tipo de papel que o livro e a capa serão impressos ( a capa geralmente tem uma gramatura maior) - fosco, brilhoso, gramatura, formato, etc.
  • Atenção na hora de montar o arquivo para impressão, porque as páginas que ficam uma do lado da outra no livro final não são impressas juntas! (vale a pena entrar em contato com a gráfica ou editora para saber se eles mesmos fazem essa mudança antes da impressão ou não).
  • Para quem faz ilustração com materiais tradicionais: pense na qualidade (principalmente da cor) nas ilustrações depois de escaneadas! 
  • Atenção ao ritmo visual criado nas páginas e à composição das ilustrações com o texto

É claro que você sempre pode contratar um designer que você conheça para fazer o projeto gráfico, inclusive recomendo que você faça isso, bora incentivar o trabalho de quem já é profissional e vive disso! Mas tenha em mente que, nem todos tem condição financeira para isso e, mesmo que tenha, é importante você ter noção de como todo esse processo acontece =)

A Lila Cruz é uma rainha para mim <3 ela é ilustradora, tem seu canal no YouTube e a lojinha online vendendo seu livro, ilustrado por ela mesma, outros produtos autorais e ainda seu blog, onde ela fala sobre diversos temas e deixa todo mundo atualizado sobre os trabalhos que ela anda fazendo! Nos seus trabalhos, ela fala bastante sobre autocuidado, sua rotina de trabalho como ilustradora freelance e sobre seu cotidiano comum, eu tenho certeza que você vai se identificar também! Acesse seu Instagram e a lojinha Quadrada para conhecer mais do trabalho incrível dela!

Fui imprimir meu desenho e a cor ficou diferente!

Mesmo que você não seja artista, já deve ter percebido que, ao imprimir uma foto, ou qualquer outro tipo de imagem, quase sempre a cor não sai bem do jeito que ela aparece no computador… Quando estamos falar do nosso TRABALHO, essa pequenas alterações podem prejudicar bastante as ilustrações.

Mas calma! Tem como evitar isso! Quando estiver fazendo algum trabalho que vai ser impresso no final, faça já desde o começo em formato CMYK! Quando fazemos ilustrações digitais, estamos trabalhando com um sistema de cores chamado RGB, mas quando imprimimos algo, a impressão é sempre feita em formato CMYK. Se você fizer em um para imprimir no outro, a tradução automática de um formato para o outro não é perfeita e as alterações de cor não intencionais podem prejudicar as ilustrações, já que, normalmente, escurecem as cores.

E porque isso acontece? 

Para entender melhor, você precisa entender algumas diferenças entre esses dois sistemas de cor. O RGB, usado em telas de computadores, TVs, celulares, é a tradução de todas as cores no formato de luz, a mistura delas resulta em cores mais claras e, assim, quando misturamos todas elas na tela temos o branco, enquanto todas elas apagadas temos o preto. Já o CMYK funciona ao contrário! Esse formato é a tradução das cores para as tintas e pigmentos, quando misturamos as cores assim, elas ficam mais escuras e quando misturamos todas elas, temos o preto. Por esses formatos funcionarem de jeitos tão diferentes assim, já dá para entender o porquê de a tradução de um para o outro pode dar tão errado, ainda mais quando deixamos isso na mão da impressora!

A ilustradora Letícia Kumaira trabalha com ilustração para livros infantis e tudo em aquarela! Para ela e para todos os outros artistas que trabalham com materiais tradicionais que terão que ser digitalizados em algum momento é extremamente importante a qualidade da impressora/escâner que vai ser utilizado, para os desenhos não perderem a qualidade das cores e a resolução da imagem digital. Dêem uma passada lá no Instagram dela para ver mais desses desenhos super fofos e os estudos de aquela dela!

Mas vou aproveitar esse trabalho específico da Letícia para contar para vocês umas coisa que é muito óbvia, mas que muita gente não percebe! Quando as ilustrações para livros são feitas na mão, como as dela, você não precisa gastar uma folha para cada uma! todos esses desenhos que ela fez nessa página muito provavelmente não foram usados nessa mesma disposição no livro, quando a equipe de design da editora recebe as ilustras, eles mesmos separam e preparam a imagem digital do melhor jeito para eles, enquanto você economiza muito papel (ainda mais esses de aquarela, a gente sabe que não são nem um pouco baratos) 🙂

Os impressionistas tinham razão: sombras pretas não são a melhor opção!

Qualquer tinta funciona da mesma maneira com relação a isso, e a impressora não é exceção! Quando misturamos o preto nas cores para escurecer, o preto tende a “sujar” as outras cores. Para a grande maioria dos casos, é mais interessante que as sombras sejam feitas a partir da mistura e contraste de cores do que apenas acrescentar doses de preto. E elém dessa questão bem técnica da impressão, essa é uma técnica mais interessante pelo visual que isso vai dar na sua ilustração, já que esse uso de contraste e outras cores para fazer sombras, substituindo o uso da tinta preta, já vem dos estudos dos artistas impressionistas, do séc. XIX =)

É claro que isso não quer dizer que o preto puro não é usado na ilustração editorial. O preto é muito comum para fazer contornos, bordas, ou até para dar aquele contraste clássico das histórias em quadrinhos.

O ilustrador e designer gráfico Marcelo Cardinal é um excelente profissional da área editorial, que trabalha com ilustração infantil e infanto-juvenil. Ele trabalha muito pouco com preto em suas ilustras, utilizando diversas sombras coloridas e contrastes de cores para ressaltar alguns elementos principais. Não se esqueça de ir lá no Instagram seguir e conhecer mais sobre o trabalho dele!

Mas isso ainda não é tudo! Ainda no decorrer do nosso podcast com o Daniel Wu e o Wandson Rocha sobre ilustração editorial, eles conversaram sobre um assunto extremamente importante desse mercado: como fazer seus trabalhos pensando em diversidade e representatividade!

Então fique ligado aqui no site porque logo sai a terceira e última parte do Guia da Ilustração Editorial e é sobre isso que vamos falar!

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